Entrevista com o bispo de Santa Cruz do Sul sobre liderança religiosa em tempos de travessia
por Assessoria de Comunicação da CRB Paraná
Curitiba – Durante o Encontro de Lideranças da Vida Religiosa Consagrada, promovido pela Conferência dos Religiosos do Brasil – Regional Paraná, na Casa Medalha Milagrosa, em Curitiba, a CRB Paraná entrevistou Dom Itacir Brassiani, MSF, missionário da Sagrada Família e atual bispo diocesano de Santa Cruz, no Rio Grande do Sul. Ele falou sobre sinodalidade, travessia do Povo de Deus e a importância de formar líderes.

Bispo desde setembro de 2024, ele atua numa diocese que foi a mais atingida pelas catástrofes ambientais de 2023 e 2024. Das 51 paróquias, 23 foram duramente atingidas pelas enchentes. Foi nesse contexto que ele chegou à diocese.
Abaixo, a conversa na íntegra.
CRB Paraná – O senhor está aqui em Curitiba para assessorar as religiosas e religiosos. Como é ser liderança religiosa hoje nesse tempo de travessia e sinodalidade?
Dom Itacir: A liderança na vida consagrada hoje, em tempos de mudanças rápidas, permanentes e profundas, exige uma grande capacidade de adaptação aos processos de mudança, que não são sempre negativos, nem sempre positivos, mas, essencialmente, um enraizamento naqueles que são os princípios fundamentais da fé cristã e das congregações, ou aquele capital espiritual, aquele tesouro espiritual com o qual nos identificamos, e, ao mesmo tempo, uma grande versatilidade ou capacidade de adaptação a novas linguagens, a novas demandas, que são próprias da cultura que nós vivemos hoje.
Então, esses dois princípios, o enraizamento naquilo que é a nossa origem, que são nossos valores, mas, ao mesmo tempo, a criatividade e a versatilidade para dar respostas às questões de hoje e não às demandas que não existem mais. A liderança precisa estar atenta a isso, além de que o foco não é tanto a instituição na qual ela dirige, mas as pessoas que a acompanham. A demanda por uma atenção para pessoas maduras, adultas, com consciência da sua dignidade, dos seus direitos, isso é importante. Não se é líder hoje como se era antes da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esses princípios, esses valores, precisam ser profundamente assimilados por quem lidera. Além disso, a liderança não é um prêmio, não é uma conquista, não é um mérito, mas é um dom, uma graça que a gente pode acolher e exercitar. Não é algo que depende apenas de um curso ou de uma preparação técnica.
CRB Paraná – E essa questão da travessia, relacionando com a liderança, a gente pode fazer um comparativo com a travessia do povo hebreu que saiu do Egito e vivenciaram vários tipos de conflitos?
Dom Itacir: Claro. A trajetória de Moisés, a sua experiência de liderança, que para mim é paradigmática para o Antigo Testamento. Como ele se identifica com o seu povo, mas mais que tudo, com o sonho de liberdade do seu povo. Muito embora ele tenha nascido na escravidão no Egito, era estrangeiro nesse lugar, ele se identifica com essa aspiração que estava um pouco no subterrâneo da vida dos hebreus no Egito. E não por desejo, mas por vocação, ele se coloca à frente desse povo, enfrentando toda uma série de questionamentos do próprio povo, desde o início até o fim da sua liderança. Mas a identificação com o sonho, com o ideal de liberdade e de instalação na terra livre, esse ideal e ao mesmo tempo a identificação com o seu povo, o levou adiante a vencer todas as dificuldades.
Tomamos também como outro paradigma, obviamente, a pessoa de Jesus Cristo. Ele não liderou sozinho, ele logo congregou em torno de si um grupo de pessoas em quem ele confiava, a quem ele ofereceu formação e depois a quem ele confiou o prosseguimento da missão. Não escolheu os mais competentes, nem os mais nobres, escolheu pessoas que ele pudesse aperfeiçoar, nas quais ele percebeu generosidade de base, que poderia daí surgir e desenvolver uma liderança. Inclusive ele viveu as competições internas entre eles, enfrentou traições, enfrentou cabeças duras, questionou Pedro, por exemplo, lavou os pés de Judas e de todos os outros, num gesto de reversão da importância de quem lidera, que passa a ser o que mais serve.
Isso dá uma reviravolta na cabeça dos discípulos, que eles não entendem e não aceitam. Não é por nada que Pedro diz: não, você não vai me lavar os pés, você é autoridade, é líder e você vai ficar no seu lugar lá em cima.
É uma questão cultural. E por isso o paradigma da liderança cristã é a liderança servidora, aquela que, mantendo a aspiração que é fundamental de todos, se coloca no meio de todos, a serviço de todos, mas sem abrir mão daquilo que é essencial.

CRB Paraná – E como a sinodalidade ajuda a liderança religiosa? Como ela pode ajudar as religiosas e religiosos a se manterem fiéis na missão profética de defender a vida dentro da igreja?
Dom Itacir: Antes de tudo, a liderança está a serviço da missão e é nessa perspectiva. A missão da vida consagrada, na definição de São João Paulo II em um documento que ele escreve para a vida religiosa (Exortação Apostólica Vita Consecrata), é mostrar à igreja e ao mundo que nada está acima do amor a Jesus Cristo e aos pobres nos quais ele vive. Então, a liderança na perspectiva sinodal não abre mão deste horizonte. Mas para que a vida consagrada desenvolva essa missão comunitariamente, aqueles que a lideram ou que a dirigem por autoridade delegada contemplam os princípios da comunhão e da participação de todos. Especialmente os processos de tomada de decisão com a participação ampla de todos os membros das fraternidades e institutos, e também na transparência e prestação de contas da missão que desenvolvem e dos recursos que envolvem nessa missão.
Nesse aspecto, o princípio da sinodalidade vem nos interpelar a progredir. Na dimensão da participação, a vida religiosa tem um longo caminho e exercitou a sinodalidade. Eu dizia: aqui no Paraná, nós estamos celebrando 70 anos da Conferência dos Religiosos do Paraná. O que é a CRB do Paraná? É um caminho sinodal em que as congregações, institutos e comunidades caminham juntas nessa circunscrição do estado. Há 70 anos tem um exercício de sinodalidade nessa perspectiva.
Mas na ação concreta, lá na ponta, na base, é isso: caminhar junto. Comunidades procurando discernimento comunitário. Caminhar junto com a igreja local, com os diversos segmentos da igreja local, porque a vida religiosa não é uma ilha na igreja, é uma célula coligada com as outras células. E caminhar junto com a humanidade, insiste o Concílio (Vaticano II). Ou seja, com aquelas instâncias sociais, culturais, que não são necessariamente da igreja.
Mas aí estão algumas demandas, algumas iniciativas e algumas causas que precisam ser abraçadas pela vida consagrada. Então, caminhar junto inclui não só as irmãs do mesmo instituto, nem só a igreja local, mas toda a humanidade. Todo o povo de Deus.
CRB Paraná – Esse caminhar junto é um desafio. A gente percebe no encontro de hoje, que é aberto para homens e mulheres, que aqui nós temos poucos institutos masculinos presentes. Como potencializar essa participação?
Dom Itacir: A dificuldade que há em todo o Brasil é que os homens consagrados se identifiquem com a sua conferência dos religiosos. Parece que é da psique masculina, mas também da cultura masculina, decidir e agir mais solitariamente, como autoridade, de cima para baixo. Enquanto que eu dizia ontem, ao iniciar, que a sinodalidade é uma perspectiva feminina.
E eu trazia uma imagem que aprendi de um provérbio moçambicano, de um povo chamado Makua, em que ele diz que o sol é uma liderança importante porque clareia o dia e faz com que a luz chegue a todos os espaços. Mas ele não é uma liderança sinodal, porque com a luz dele ninguém mais brilha. Ele faz isso sozinho. Enquanto a lua é mais sinodal. A lua recebe a luz do sol e brilha à noite com a sua luminosidade, mas permite que todas as estrelas apareçam. Ou seja, é uma liderança colaborativa. Essa imagem do sol e da lua, ambos têm sua importância, mas nos mostra a lua um papel, uma imagem mais sinodal do que o sol.
Porque a gente percebe que, mesmo com pouca participação masculina, há uma beleza enorme dentro dessa diversidade de carismas. E a gente vai percebendo que esse caminhar junto tem que estar em uma escuta atenta também, em uma comunhão. Um dos princípios da sinodalidade é a escuta recíproca. Mais escutar do que falar, que em geral nos leva a consensos sobre causas comuns, sobre prioridades que nós assumimos.
Mas essa escuta recíproca vai, de braços dados, com a escuta de si mesmo em profundidade. E na escuta de si mesmo, na escuta dos outros, é que nós escutamos e acolhemos os apelos de Deus. Certo que eles estão na Bíblia, mas essa Bíblia é letra morta se ela não repercute, se os apelos de Deus não repercutem nos acontecimentos e nas pessoas concretas. Então, a escuta recíproca e permanente nos leva ao diálogo, nos leva aos consensos, e nesse caminho é que nós identificamos a vontade de Deus para cada situação concreta.
CRB Paraná – O Papa Francisco disse que os consagrados devem ser capazes de despertar o mundo. Como a gente pode entender esse desafio?
Dom Itacir: Despertar o mundo, porque pode ocorrer que a cultura na qual nós vivemos nos anestesia ou nos coloca em letargia. Ou seja, a gente acaba se envolvendo, consumindo totalmente nossas energias e nosso tempo com as necessidades imediatas, com a sobrevivência imediata ou com as satisfações imediatas. E como os consagrados e consagradas não medem o tempo em termos de produtividade, não medem as coisas em termos de valor de troca, a gente tem a missão de acordar a humanidade para esses valores perenes que vão para além de um momento histórico ou de um momento civilizatório.
No fundo, é resgatar os valores essenciais de uma humanidade que se entenda como humanidade única e não como primeiro mundo, segundo mundo e terceiro mundo. Recordar a partir do evangelho esses valores constituintes da convivência humana é a missão confiada à vida religiosa nesse sentido: acordar a humanidade para aquilo que não é passageiro, para aquilo que é duradouro, que é permanente. E não estou falando aqui contrapondo a história à eternidade, mas contrapondo aquilo que na história, no mundo, é passageiro àquilo que para a convivência no mundo tem consistência, tem durabilidade e deve permanecer. Esses valores da convivência humana.
CRB Paraná – Como o senhor vê a importância das pastorais, serviços, organismos e movimentos da Igreja de realizar encontros voltados para a formação de lideranças?
Dom Itacir: É importante que as pastorais em todos os setores da Igreja façam isso. Durante um encontro das pastorais sociais do Rio Grande do Sul, no regional Sul 3 da CNBB, éramos lá 60 e poucas pessoas, um dos temas era o despertar vocações para as pastorais sociais. Ou seja, despertar pessoas que se sintam chamadas à inserção nos movimentos e atividades e programas que beneficiam a sociedade e que visam o bem comum.
Essas iniciativas são importantes. Por isso, primeiro, há uma necessidade de despertar o gosto, os dons que você tem para a liderança social e ao mesmo tempo oferecer ferramentas adequadas para o seu campo específico. Para quem trabalha com a pastoral da terra, são algumas ferramentas. Para quem trabalha com a pastoral da criança, são outras. Para quem trabalha com a pastoral carcerária, são outras.
Precisa-se de uma formação geral que nos ajude a colocar no espírito correto, que é uma ação pastoral, por isso uma ação da Igreja, e uma formação mais técnica e metodológica para atuar nesses campos específicos, que têm suas demandas e seu modo próprio de atuar.
A formação é muito importante. E quando a gente tem alguns fóruns, como esse do qual eu participei enquanto bispo referencial das pastorais sociais, aí se enriquece pela diversidade metodológica, se enriquece porque a gente descobre causas e compromissos que são comuns, que são transversais a todas as pastorais.

CRB Paraná – O senhor mencionou as enchentes no Rio Grande do Sul. Como foi com as lideranças naquele momento tão tenso?
Dom Itacir: Eu me surpreendi positivamente. Na primeira reunião da qual eu participei, três dias depois da minha nomeação, ainda sem ter estado na diocese, participei de uma reunião virtual em que se falava das iniciativas de socorro, de atendimento, de auxílio aos atingidos. Porque em maio foi a segunda enchente; a primeira foi em setembro de 2023, mas a de maio de 2024 foi mais arrasadora.
Havia várias iniciativas, inclusive um comitê amplo da diocese, que ia desde o recebimento de ajudas e a distribuição até a visita in loco e acompanhamento humano e psicológico aos mais atingidos. Havia uma equipe imensa trabalhando nisso. Havia um projeto mais duradouro chamado Missão Sementes de Esperança, que visitou todas as famílias rurais e urbanas atingidas diretamente distribuindo, depois de uma segunda ou terceira visita, kits com sementes e mudas para recomeçar a agricultura de subsistência.
Esse projeto foi levado adiante por diversas entidades, desde a Cáritas, o Movimento dos Pequenos Agricultores, a CPT e várias outras instituições e entidades que apoiaram. Esse movimento foi muito importante. O MAB esteve junto, o MST.
Para mim foi uma surpresa, e nós tematizamos isso na Assembleia de Pastoral que concluímos no início do mês. Ao fazer uma escuta sobre as demandas da região, as principais questões que interpelam a igreja, apareceu de uma forma muito pequena e pouco expressiva a preocupação com o meio ambiente.
Não obstante uma diocese tremendamente atingida, não aflorou na consciência das pessoas a gravidade da questão ambiental e a responsabilidade proporcional de todos. Tanto que não apareceria como uma questão importante se não fosse recordado nas instâncias da Assembleia. Nisso a gente não é diferente de todas as outras.
Depois da busca da reconstrução e do realocamento das pessoas deslocadas, a gente volta à vida normal, à velha normalidade, como voltamos depois da pandemia. Essa letargia, essa anestesia cultural que a gente vive, é real. E aí a vida religiosa, não só a vida consagrada, mas a vida cristã, tem um papel importante de acordar a sociedade como um todo para essa questão, também para a questão climática.




